segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sapposhi, Peichin e o misterioso Tode

OSSu!

Prosseguimos esta semana com a série de posts onde falaremos sobre a origem histórica do Karate-Do. Continuamos na nossa trilha para, como bem mencionou o professor Rogério no comment semana passada, entender a real relação da arte de Okinawa com o Te, sem contundi-lo com as artes da China. Continuaremos utilizando na grafia dos termos o mesmo padrão apresentado pela prefeitura de Okinawa que pode ser conferido no link à esquerda ‘Wonder Okinawa’ aliado às regras de formatação da ABNT.

Desde 1404 d.C., os Ryukyu recebiam visitas ‘diplomáticas’ de representantes chineses (pois como já citamos o reino do qual Okinawa fazia parte era vassalo deste país). Estas visitas eram chamadas Sapposhi e, comumente, seus integrantes eram militares do ‘país do meio’ que vinham supervisionar as relações entre Ryukyu e a China. Passados 25 anos deste primeiro encontro, Shohashi unificaria os reinos dos Ryukyu, estabelecendo, entre outras coisas, a periodicidade destes Sapposhi.

Sabe-se que estes eventos eram momentos importantes para trocas culturais com os representantes chineses e que, no Sapposhi de 1756 d.C. (o 19º, sob liderança do embaixador Zenkai), foram realizadas demonstrações dos especialistas Kusanku (Kung Sian Chung), Peichin Sakugawa e Chatan Yara, introduzindo respectivamente as técnicas dos sistemas chamados então: Kusanku-zaiko, Tode Sakugawa e Chatan Yara no Kenpo.

Porém, o que ocorria era que, nesta época, alguns Peichin como Sanga Sakugawa já haviam se apropriado das técnicas de luta locais, o Te de Okinawa. Depois de passar maus bocados para conter os heimin revoltosos desde o século XV, os guerreiros okinawanos passaram a estudar a luta de mãos nuas nativa, chegando a criar um sistema de graduação de 6 hachimaki (faixas de testa) coloridos, a exemplo das faixas que usamos hoje na cintura para graduações de kyu.

A influência crucial das artes chinesas nas técnicas locais pode ser constatada através dos manuscritos chamados Bubishi. Este ‘Tratado de Preparação Guerreira’, foi sendo copiado manualmente por gerações, até ser formalmente documentado nas ‘Notas de Oshima’ por Ryosho Tobe. Neste documento, além do Bubishi, Tobe transcreveu o Kusanku (tratado sobre as técnicas do militar chinês Kung Siang Chun) e o Kumiaijutsu. Na parte que competia ao Kusanku, Tobe apresenta as técnicas que deram origem aos kata que conhecemos hoje por Kushanku, Kosokun ou Kanku. No trecho que apresenta o Bubishi, podemos ver as chamadas 48 técnicas de Quan, onde dois guerreiros com vestimentas chinesas combatem (aliás, com admirável semelhança à representação artística do famoso quadro sobre os monges do Templo Shaolin, até hoje conservado na China).

As incríveis histórias envolvendo diversos guerreiros de Okinawa praticantes do Tode, tais como Sokon Matsumura, Kishin Teruya, Kosaku Matsumora, Anko Itosu e Kanryo Higaonna fizeram com que a arte fosse chamada por nomes como Shimpi Tode (Misteriosa Mão Chinesa) ou Reimyo Tode (Miraculosa Mão Chinesa). Aqueles feitos inconcebíveis, como a capacidade de receber inúmeros golpes sem sofrer danos, paralisar adversários com o kiai (técnica de brandido vocal para condução da energia vital, ou ki), romper troncos de árvores com golpes ou esmagar grossos talos de bambu com as mãos nuas, podem hoje ser compreendidos e cultivados através das explicações sobre o funcionamento das energias do nosso ‘corpo vital’ (quem quiser se aprofundar neste tópico pode começar leituras pelos trabalhos relacionados à física quântica, consciência e saúde dos autores Deepak Chopra, Frijtot Capra e Amit Goswami).

Estamos chegando então, aos tempos do Tode moderno, o século XIX, onde já iniciavam em Okinawa os treinos dos mestres mais conhecidos por levar a arte ao Japão Continental. Acabava assim, a cultura do Isshi-soden (a passagem das técnicas de defesa pessoal apenas entre parentes) e iniciava a prática do Karate nas escolas de Okinawa.

No próximo post: ‘Hoje na Educação Física praticamos Karate!’

OSSu!

Tiago Frosi

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